Terça-feira, Março 07, 2006

Era um típico fim de tarde cinza e quente de março, época em que se quer menos ainda estar dentro de um ônibus abarrotado de gente. Não tinha escolha, pois queria fugir da chuva que previsivelmente cairia forte por aqueles lados. Além do mais, não via a hora de chegar em casa e tomar um belo banho, depois de ter passado muito tempo perambulando pelas ruas. Suas pernas doíam e seus braços também, por carregarem duas sacolas cada um. Várias pessoas conversavam alto, uma criança chorava no colo da mãe, o trânsito estava engarrafado e o calor parecia insuportável.

Fechou os olhos e tudo que desejou era não estar ali. Imaginou-se a voar. Pressionara os pés no chão, flexionara os joelhos e saíra flutuando leve pelos ares. Sentia o vento bater em seu rosto, o silêncio tomar conta de seus ouvidos e a sensação de liberdade lhe gerar um divertido frio na barriga.

Sem se dar conta do tempo que passara assim, abriu os olhos novamente e encarou, mais uma vez, o cenário do ônibus. Conseguiu sentir uma brisa vinda das janelas. Estavam todos em movimento, seguindo pra casa, ou pra onde quer que fosse. Uma senhora, sentada perto da janela, cantarolava uma música que a lembrou seu pai. O céu já não estava tão cinzento e mostrava o colorido amarelado que tanto a agradava. Todos refletiam a luz do entardecer e as peles assumiram um tom encantador. A criança parara de chorar e estava brincando com o botão da camisa do passageiro ao lado, que sorria. Sorriu também.

Foi ali que entendeu o quanto gostava daquele lugar, daquelas pessoas, daquela vida. As contradições e ambigüidades a mostravam a riqueza daquele povo. Sofria ao observar tanta pobreza, tanta necessidade, tanto sofrimento por todos os lados, mas não conseguia deixar de acreditar por completo que tudo melhoraria um dia, de alguma forma. Havia também a beleza, a simplicidade, a alegria e outros valores bons contrastando com o que era negativo. Não haveria de estar tudo perdido.

Voltou para casa como nunca antes e andou em meio a multidão transmitindo esperança. Sentia que isso faria alguma diferença.


We could build our own version of society.

Incubus - Version

Marina @ 22:37.