Quarta-feira, Abril 27, 2005

E junto com a batida, vai meu corpo. Como se o monte de ruídos combinados tomasse vida e invadisse de propósito minha alma e matéria.

E não só pelo ouvido. A tal vida toca a pele e os pêlos arrepiam. Como se alguma freqüência, perdida no meio do emaranhado de ondas, atingisse meu sistema nervoso e me fizesse querer largar tudo pra balançar.

Lá dentro, em algum lugar perto do peito, sinto uma pontada. Daquelas parecidas com de amor. Uma emoção que traz água aos olhos e sorriso bobo à boca.

A emoção não só me faz ter vontade de gritar, pôr a sensação pra fora através das palavras, mas vontade de que elas saiam ritmadas, belas, agradáveis.

E elas saem. E de dentro pra fora, gradativamente, elas fazem o ambiente se tornar repleto de harmonia. De sentimento. De inconsciência. De som.

Por alguns minutos, não se pensa. As pálpebras se abaixam e as cordas vibram. Tudo vibra. Tudo parece certo. Como se o universo inteiro coubesse em um compasso.

O compasso e o coração são um só. Ambos tocando juntos, num casamento perfeito. Música e amor. Par inseparável.


Cantar e cantar e cantar
a beleza de ser um eterno aprendiz.



Gal Costa - Assum Branco

Marina @ 15:04.



Domingo, Abril 24, 2005

Era uma vez, uma menina que resolveu acreditar no destino.

Ela caminhou no meio da multidão. Decidiu que o que tivesse que acontecer, aconteceria. Os rostos passavam por ela despercebidos. Não queria e não precisava prestar atenção neles. O único rosto que importava pertencia a um ilustre desconhecido que a conheceria. Então, ela continuou.

Nem por isso, ela deixou de ficar ansiosa. Uma estranha adrenalina corria em suas veias. Talvez fosse a incerteza que provocava tamanha sensação de insegurança. Ela estava ali, vulnerável, pronta para o inesperado. E ela esperava. Por mais irônico que possa parecer, a pequena menina esperava o inesperado.

Sentou-se na areia como amava fazer, principalmente em noites perfeitas como aquela. Céu estrelado, horizonte inexistente, espuma branca, brisa suave. Era melhor esperar ali. Cantarolava, vez ou outra. Emocionava-se, vez ou outra. Tentava se distrair, vez ou outra.

Escreveu seu nome na areia, como fazia quando criança. Aliás, escreveu somente metade dele. "Mar". Ah, como ela amava o mar, aquela menina. Ele era misterioso e transparente, ao mesmo tempo. Constante e turbulento. Imprevisível e sedutor. As dualidades fascinavam a garota do mar... Sim. Ela se distraiu.

Mas a espera deixou de fazer sentido. O destino não podia ser tão leviano e não deixar nenhum sinal. A ansiedade já havia virado angústia. Ela precisava de uma prova de que aquilo fazia mesmo sentido. "Quando o mar apagar o Mar, eu vou embora". E, assim, o tempo passou. E a maré subiu.

Até que ela viu um vulto caminhando em sua direção. Coração disparado. Mãos suadas. Pele queimando. Era um moço. Um moço de camisa amarela. Ele chega cada vez mais perto. Muito perto. A água apaga as letras. E o moço passa. Passa. Passa. E se vai. Uma lágrima escorre no rosto da menina. Ela se levanta. E corre pra casa.

Era uma vez, uma menina que resolveu acreditar no destino... E descobriu que seu destino era terminar sozinha.


Could I have missed my chance,
and watched you walk away?



Incubus - Wish You Were Here

Marina @ 22:35.



Quarta-feira, Abril 20, 2005

_ Alô?

_ Ei. A Marina está?

_ A Marina viajou.

_ Ahm... Tá.

_ Quer deixar recado?

_ Não, não. Finge que eu nem liguei.

_ Ó.

_ É. Tchau.

_ Tchau, ué.

Tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu...


Pra que tanto telefonema...
Se o homem inventou o avião.
Pra você chegar mais rápido...
Ao meu coração.



Björk - Scatterheart

Marina @ 19:15.



Segunda-feira, Abril 18, 2005

Existem vários bichos e eles são divididos em espécies.

Um desses bichos é a formiga e uma das espécies é a "formiga-fantasma". Acontece que meu quarto é povoado por essas pequenas e numerosas criaturas.

Elas me intrigam, deveras. São minúsculas, quase que invisíveis, e, ainda assim, devoram todo resto de comida que eu, invariavelmente, deixo pelos cantos. Elas não são nem um pouco seletivas: comem cereais, carne, resto de bolo, resto de suco...

Resto de suco, vejam só!

Sempre me perguntei se as formigas bebiam algo e, através de experiências, pude observar que ou elas de fato bebem ou simplesmente gostam de se refrescar.

É porque... Eu tenho um aquário. Com peixes de vidro, diga-se de passagem. Cidadã responsável que sou, coloco sempre uma dose de cloro no troço pra num dar dengue. E num é que as formigas atacam a água?

Isso só faz aumentar a minha dúvida, afinal, abre outra possibilidade - a água sanitária está para as formigas assim como o ópio está para os chineses.

Teriam as formigas evoluído de modo que agora elas bebem água? Seria a água sanitária um potente inseticida? Teria eu deixado cair algum pedaço de comida dentro do aquário? Seria o aquário um Resort? Deveria eu estar fazendo a resenha de Filosofia ao invés de ficar falando asneira aqui?

Vou ali mandar um e-mail pra Universidade de Massachusetts e ver se eles subsidiam minhas pesquisas.


People in every direction...
No words exchange, no time to exchange.
When all the little ants are marching...



Manu Chao - Me Gustas Tu

Marina @ 16:41.



Sábado, Abril 16, 2005

[Marina ergue o braço, humildemente, pedindo a palavra]

[Marina caminha devagar até o microfone]

[Marina dá leves tapinhas nele pra testar o som]

[Marina começa a falar]

Er... Oi.

[Marina dá um singelo tchauzinho pra alguém]

Queria só esclarecer algumas coisas que vêm sendo ditas sobre mim. Eu, de fato, sou uma menina, com "a" no final, mesmo que insista em me auto-denominar Macaco, com "o" no final.

Posso, inclusive, comprovar que sou do sexo feminino. Já chequei mais de uma vez se havia um bingulim em mim, ou não. E... A verdade é que eu tenho uma conchinha ao invés de uma mangueirinha. Juro. Por mais que tentem provar ao contrário.

Fui clara?

Enfim... Aproveitando a oportunidade, queria explicar uma outra coisa.

Mais uma vez é sobre o Tsunami Blogueiro. Essa idéia maravilhosa, que originalmente não foi minha e sim do Eriquico, já está rendendo bons frutos.

É o seguinte: toda semana, um tópico é escolhido e, quem se interessar, escreve sobre ele em seu respectivo blogue. Assim, temos a oportunidade de, ao mesmo tempo, vermos diferentes pontos de vista sobre o mesmo assunto. Intertextualidade.

À propósito, o último tema é Relações na Internet.

Algumas pessoas estão com verdadeira dificuldade de entender isso. Talvez da próxima vez eu volte aqui com uma prancheta e desenhe um esqueminha.

Obrigada pela atenção e tal e coisa.

Tchau.

[Marina sai delicadamente]


Não sabe, não sabe...
Vai ter que aprender.



Cordel Do Fogo Encantado - Chover



Quinta-feira, Abril 14, 2005

Muito freqüentemente, as pessoas me perguntam que graça eu vejo em passar horas e horas na Internet. A verdade verdadeira é que nem eu sei ao certo a resposta.

Sendo racional, chego à conclusão de que eu realmente não faço muita coisa por aqui. Pra ser sincera, minha vida virtual se resume em MSN-Blogs-Orkut. De vez em quando, uma pitadinha de iSketch, ou Kazaa, ou algo parecido. Mas, no batidão, é só isso mesmo.

Muitos dizem que eu sou preguiçosa e que eu só fico sentada aqui por não ter ânimo pra fazer outras coisas. Isso não é mentira, mas, de fato, não é o único motivo.

É mais ou menos o seguinte... Tudo começou despretensiosamente. Precisava arrumar algo pra fazer no meu tempo vago.

Desisti da televisão, depois de longas batalhas, e passei pro computador. Cansei de jogar Campo Minado e, por fim, criei esse treco que costumam chamar de blog. Vez ou outra, largava algumas bobagens escritas nele e lia algumas bobagens, nem tão bobagens assim, que as pessoas escreviam nos seus. E a coisa foi evoluindo, o que quer que isso queira dizer.

A questão é que através dessa ferramentinha eu conheci pessoas fantásticas, que nem sonharia em ter contato na "vida real". Primeiro porque a maioria mora longe. Segundo porque quem vê cara não vê coração, se é que vocês me entendem.

Não vou discorrer sobre as vantagens e desvantagens desse troço. As relações estabelecidas aqui não são menos complexas do que as estabelecidas no plano "empírico", haja visto que os atores principais de ambas continuam sendo os complicados e ambíguos seres humanos.

Digo, esse papo de que por não existirem barreiras como a aparência, por exemplo, as pessoas fingem ser quem não são... Esse discurso não cola comigo. Mesmo com as tais barreiras, ou seja, na "realidade", as pessoas podem ou não fingir ser algo que não são.

Eu prefiro deixar essas teses especulativas de lado e tento aproveitar tanto a riqueza dos tocáveis quanto a dos intocáveis. Até porque, cada dia mais, eu descubro que as pessoas são maravilhosas. E, como já disse aqui, agradeço por me relacionar com elas, mesmo que seja só por essa tela fria.


É preciso força...
Pra sonhar. E perceber...
Que a estrada vai além do que se vê.



O Tsunami dessa semana é metalingüístico: Relações na Internet.

Los Hermanos - Além Do Que Se Vê

Marina @ 22:32.



Quarta-feira, Abril 13, 2005

É impressionante essa história de globalização. As notícias correm mais rápido do que em cidade do interior, quando alguma mocinha engravida.

Uma mulher do Cafundó do Judas dá uma entrevista gaguejando e, já-já, vira ícone nacional. A briga judicial de uma família, em uma terra distante, vira polêmica por toda parte. Um líder religioso morre e, de repente, a TV parece a escadaria da Igreja do Bonfim.

Coisa de louco, meu.

Fico imaginando quando a Xuxa, que tá aqui pertinho de nóis, morrer.

Juro. Juro por Deus, que vou dar um jeito de ir pro Himalaia quando isso acontecer. Porque, sério, nem o feriado extraordinário, que eles vão declarar, vai compensar o blablablá que vou ter que agüentar.

Posso até ouvir o "I-lari-lari-ê" tocando infernalmente em cada estabelecimento comercial.

Nhaffe.

Alguém, por favor, meta a Xuxa no formol I-M-E-D-I-A-T-A-M-E-N-T-E. Para o bem geral da nação.

Se não...


Vamos fugir...
Desse lugar, beibe.


Lulu Santos - Toda Forma de Amor

Marina @ 16:02.



Domingo, Abril 10, 2005

FIGHT! FIGHT! FIGHT!


Sábio foi Veríssimo quando disse, em sua crônica "Perigo":

"Todos nós sabemos como o excesso de autoconfiança pode ser desagregador, principalmente em locais públicos. As pessoas com controle sobre as suas próprias vidas são geralmente as que nos empurram, buzinam atrás de nós no trânsito e furam a fila do cinema."

Não é muito difícil de se encontrar, principalmente nos dias de hoje, pessoas que se acham melhores que as outras. Elas estão espalhadas por todos os lados. Nas padarias, nas empresas, na rua, e, porque não, na internet.

Tem nêgo que só porque tem um blog descolado e publica suas doses de sarcasmo diárias acha que pode menosprezar os outros. "Eu sou esperto, tenho amiguinhos espertos e todo mundo baba meu ovo."

Ah, me poupe.

Alguém precisa dizer pra esse povo que não é bem assim que as coisas funcionam. Nós NÃO somos tão importantes quanto pensamos que somos. E nós NÃO somos essenciais, insubstituíveis e tão melhores assim.

Pra você, metidinho a gostoso, que se acha o mais sagaz e interessante dos seres humanos, uma palavra: MENOS.

Gente assim é que, mais cedo ou mais tarde, morre com um tiro endereçado na cabeça.

Sejamos macacos humildes. Porque é o melhor a se fazer.


Essa onda que tu tira, qual é?
Essa marra que tu tem, qual é?
Tira onda com ninguém, qual é?
Qual é, neguinho? Qual é?


Incubus - Shaft

Marina @ 20:17.



Quarta-feira, Abril 06, 2005

Inspira e expira sem se dar conta. Uma sanfoninha sobe e desce. Faz isso há bastante tempo. A vida já não se justifica mais.

Não há vento no rosto. Não há risada. Não há lágrima. Não há beijo na chuva. Não há chuva, sequer. Não há música. Não há som, além do ruído insistente de um aparelho. Não há dança. Não há movimento. Não há abraço. Não há amor.

Amor, só do lado de lá. Amor egoísta. Que quer pra si. Quer demais. Não pode e não consegue perder. E prende. Prende. Prende. É por amor.

E enquanto isso, a sanfoninha sobe e desce. Sem sentido. Sem sentir.

Inspira... Expira... Inspira... Expira...


Adeus, você...
Eu hoje vou pro lado de lá.
Eu tô levando tudo que é meu,
que é pra não ter razão pra chorar.
Vê se te alimenta e não pensa
que eu fui por num te amar.

Quero ver você maior...
Meu bem...
Pra que minha vida siga adiante.



Esse texto já faz parte do Tsunami Blogueiro. O tema dessa semana é Eutanásia. Escreva você também e entre nessa onda supimpa!

*Explicando*
GENTE... Não existe um blog do Tsunami Blogueiro. Quem quiser, escreve sobre o tema da semana e posta no SEU PRÓPRIO blog. Compreendido?

Los Hermanos - Adeus Você

Marina @ 15:20.



Sexta-feira, Abril 01, 2005

Certa vez, um Rei resolveu fazer uma brincadeira para comprovar seu poder. Para isso, ordenou que o vidraceiro confeccionasse um cubo, vazio, e convocou todos os habitantes do pequeno reino para um grande banquete.

Apresentou a caixa de vidro para os servos, nobres e religiosos, dizendo que aquele era um presente divino que recebera. Dialético que era, convenceu a todos de que havia uma criatura presa naquela redoma, porém, somente o soberano era capaz de vê-la. Esse "animal" fora enviado para aconselhar o déspota, e todos deveriam respeito e devoção a ele.

O pedido do Rei foi fielmente atendido e o bicho invisível passou a ser adorado e a "ditar as leis por lá".

O vidraceiro, só ele além do brincalhão real, conhecia a verdade e, inclusive, tentava convencer algumas pessoas disso. Em vão, é claro.

Eis que um dia, uma epidemia atinge a população e todo mundo morre. Do mais devoto camponês, até o herege vidraceiro que conhecia a verdade.

Er. Fim.


If I hadn't made me...
I would've been made somehow.


Zeca Baleiro - Heavy Metal do Senhor

Marina @ 01:03.